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  • barretoraphaela

Presente ITALIANO!

Dia 21/02 comemora-se o dia do imigrante italiano, e por aqui, Luca e Nita prepararam uma surpresa especial! Dá uma olhada nesse lindo wallpaper, feito pela @vampiscritora:


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Se você ainda não conhece esse casal, confira aqui embaixo dois capítulos GRATUITOS do romance histórico mais lindo e fofo desse Brasil!



CAPÍTULO 1


Eu estava diante daquele imenso navio no porto de Gênova e não me parecia que todas aquelas pessoas iriam caber nele.

— Está com o seu bilhete, Nita? — perguntou minha mãe.

— Estou sim, e com os das pestes também. — Leonel puxou a minha mão e fez careta. Ele era meu irmão e tinha sete anos, assim como Lorenzo, de três anos, que dormia no colo de minha mãe, na época grávida de cinco meses. O meu pai estava na nossa frente, observando tudo o que acontecia ansioso, até o momento de embarcar e sairmos dessa terra que já não nos oferecia mais nada.

Eu conseguia lembrar nitidamente do dia em que meu pai chegou na nossa casa com essa história de deixarmos a Itália. Tínhamos uma pequena fazenda no interior de Vêneto, onde cresci, território de nossa família por duas gerações. Morávamos com meu tio, sua esposa e seus seis filhos, mas os negócios não iam muito bem havia meses. Mal conseguíamos vender o que produzíamos, e quando vendíamos era por preços relativamente baixos já que não havia como concorrer com os grandes proprietários de terra. Em uma quarta-feira, após o jantar, digo, após mais uma sopa de fubá, Lorenzo disse que ainda estava com fome e não havia mais comida. Meus pais se olharam, era possível enxergar a angústia e a tristeza estampada em seus rostos.

— Amanhã, meu querido — disse minha mãe da melhor forma que pôde.

— Hora de ir para a cama — completou meu pai. Eu assenti e, com isso, peguei meus irmãos e os coloquei para dormir.

— Você não sente fome Nita? — perguntou Lorenzo depois que o cobri.

— Sinto sim, mas amanhã vai ser melhor do que hoje. — Dei-lhe um beijo na testa e saí do quarto.

Eu e meus irmãos dormíamos no mesmo cômodo, mas eu não estava com sono. Fui até o corredor, ouvi meus pais conversando e de alguma forma sabia que o nosso futuro seria diferente dali em diante. Ouvi partes da conversa, algo como rumores de outro país, imigração, chances de uma vida melhor – eu já tinha escutado e visto isso antes. Havia cartazes e panfletos espalhados por todos os vilarejos, oferecendo uma vida melhor no exterior, para ser mais exata, no Brasil. Eu sabia que eles precisavam de trabalhadores para as plantações de café, mas a ideia de deixarmos nossa tão querida terra me assustava. Poderíamos dar um jeito, não?

Não.

Na quinta-feira, meu pai chegou com os panfletos em casa, reuniu-nos na sala e por fim disse: “Nós iremos para o Brasil”. E em menos de um mês toda a viagem estava organizada, embarcaríamos no próximo navio. Como não tínhamos dinheiro para custear a viagem, o governo brasileiro iria pagar passagens de terceira classe para toda a família. Não éramos os únicos, muitos que moravam perto de nossa fazenda fariam o mesmo. A vida definitivamente não estava boa para nós, italianos. Meu tio, por sua vez, decidiu ficar e tentar cuidar pelo menos, mais um pouco, de nossa terrinha.

— Está tudo bem, minha menina? — perguntou meu pai, ao perceber que eu estava olhando para o nada e me tirando dos devaneios.

— Está, sim.

— Todos nós temos medo do que não conhecemos, mas estamos mudando nossas vidas para melhor. Precisamos de emprego e eles precisam de trabalhadores, vai dar tudo certo. — Eu assenti. Claro que estava com medo, estávamos deixando tudo para trás para ir a um país que mal conhecíamos. Ficaríamos quase um mês em alto mar, mas e depois? Como seria o depois?

O embarque começou, não dava para contar quantos de nós estávamos entrando naquele navio rumo ao desconhecido. Eu e minha família tentávamos permanecer o mais próximo um do outro para que não nos perdêssemos.

Olhei pela última vez o bilhete antes de entregá-lo: 12 de Março de 1889. Viagem para o Brasil. Tempo estimado de 29 dias. Terceira classe.

12 de Março...

Em seis dias seria o meu aniversário de 16 anos, e nada melhor do que comemorá-lo dentro de um navio — mas tudo bem, iríamos mudar para uma vida melhor.

Fomos direto para nossos aposentos, assim como a grande massa que estava em nossa volta. Nosso quarto era praticamente no porão do navio, então tivemos que descer várias escadas — sorte nossa que tínhamos pouca bagagem, três malas somente, pois decidimos pegar as melhores roupas e alguns objetos de valor.

A terceira classe do navio se dividia em dois andares, cada qual com um corredor grande com portas brancas de ambos os lados. O carpete era vinho e o cheiro de madeira recém-pintada invadia o ar, assim como a confusão nos local. Havia pessoas por todos os lados gritando, gesticulado, ouvi até algumas discussões e crianças chorando — tudo para achar seus quartos. Foi um alívio quando achamos o nosso. Era o número 325, no primeiro andar da terceira classe. Assim que entramos, fechamos a porta e o barulho de lá de fora diminuiu.

O lugar era pequeno, mal dava para andar, havia uma cama de casal, um beliche e um pequeno banheiro no fundo. Entreolhamo-nos e pela minha conta havia uma cama a menos.

— Lorenzo dorme conosco na cama — disse minha mãe prontamente como se tivesse lido meus pensamentos.

— A cama de cima é minha. — E fui para o beliche.

— Por que eu não posso dormir em cima? — perguntou Leonel.

— Porque eu sou a mais velha e você iria cair.

— Não iria, não.

— Iria, sim.

— Não..

— Parem com isso vocês dois — falou meu pai. Ele sabia que isso tudo acabaria em briga. Leonel sempre vinha correndo para cima de mim quando discutíamos.

Deitei em minha cama, não era macia, mas estava ótima. Estávamos de pé desde a madrugada e ainda não era nem a hora do almoço. Meus irmãos estavam com a minha mãe na cama enquanto meu pai se aproximou do beliche.

— Cansada?

— Um pouco... Pai, como será a América?

— Não sei, minha menina, mas será cheia de oportunidades. — E então, eu sorri, pois todos diziam isso sobre a América e eu acreditava. Todos alimentavam grandes esperanças em relação ao Brasil e melhores condições de vida, e apesar do medo que sentia e da saudade que já estava dentro de mim, ansiava por essa nova terra.

Em pensamento, comecei a cantarolar uma música que ouvi no porto. Era algo assim: “América, américa querida, é para lá que eu vou, Brasil terra verde...”, e então o cansaço me dominou e adormeci.

Acordei com a minha mãe me chamando, era a hora do almoço. Subimos até o salão principal no primeiro andar, onde ficava o restaurante. Havia várias mesas redondas ao longo de todo o salão, as primeiras estavam com poucas cadeiras e, conforme avançávamos para o final, as cadeiras em volta das mesas iam aumentando. Sabíamos que essas eram as nossas. Sentamo-nos no lado esquerdo no final, o menu que estava ali indicava que naquele dia seria Fuzili. Nossa mesa tinha oito cadeiras, então sobraram três lugares.

— Podemos nos sentar aqui? — perguntou uma menina que parecia ter minha idade e que felizmente se sentou ao meu lado. Ela era alta e tinha cabelos castanhos. Meu pai assentiu e eles sentaram.

— Sou Alessandra Bellini e estes são meus irmãos Mario e Francisco.

— Olá — respondi. Os dois irmãos também eram mais novos que ela. Que coincidência!

— Eu sou Guido De Pauli, essa é minha esposa Donatella e meus filhos Leonel, Lorenzo e Antonieta — disse meu pai.

— Mas pode me chamar de Nita — completei. Gostava do meu nome, mas ele era muito grande. — Veio com seus pais, Alessandra?

— Sim, eles estão logo ali. — Apontou para a mesa onde seus pais estavam com mais algumas pessoas e eles acenaram. Eu e Alessandra conversamos durante a refeição e descobri que ela morava próximo de minha vila e que gostávamos das mesmas canções. Poucas horas no navio já haviam me rendido uma amiga, e o que será que me aguardava nos próximos 28 dias?

Ela me convidou para andar no convés depois do almoço. Um pouco de ar fresco seria bom. Todos os lugares que andávamos estavam abarrotado de gente, mulheres, crianças, homens, jovens, idosos... Todos em buscar de uma vida melhor.

O dia estava ensolarado e a imensidão de água a nossa frente era grandiosa. Fomos até a popa do navio onde ainda dava para ver bem ao longe o porto de Gênova. Estávamos deixando tudo para trás, família, casa, amigos, lembranças... A fome e o desemprego, também.

— Você sentirá falta? — perguntou Alessandra.

— Com certeza, sim.

— Eu também.

— Adeus, querida Itália — falei baixinho com os olhos um pouco marejados já sentindo a saudade bater no peito.



CAPÍTULO 2

Passaram-se dois dias desde que embarcamos, eu estava deitada e Leonel estava pertubando Lorenzo no quarto. Minha mãe estava irritada na cama com dor na coluna devido à gravidez e meu pai tinha ido andar pelo navio.

— Leonel, pare com isso ou vai apanhar!!! — gritou minha mãe. Desde o dia anterior, ela não estava bem e o balanço do mar só piorava a situação. Para minha sorte, eu não tinha ficado enjoada ainda e nem meus irmãos, ou seria um total desastre.

— Antonieta, leve Leonel daqui agora ou todos vão apanhar! — Eu assenti mais do que rápido e pulei da cama, ela falava sério sobre bater em todos, até em mim que não tinha nada a ver com história.

— Vamos, pestinha — falei, pegando na mão de Leonel. Ouvi Lorenzo protestar que também queria vir, mas seria um caos pelo navio, já que os dois estavam sempre brigando e se provocando.

Ao andar pelo navio, descobri que o “porão” era onde ficavam as máquinas e o depósito. Depois vinha a terceira classe, a segunda e por fim a primeira, onde havia alguns quartos de luxo e o grande salão.

Levei Leonel para andar no convés, não via Alessandra desde o almoço e não quis incomodá-la em seu quarto que, a propósito, era bem perto do meu. Era bom ter feito uma amiga e não ter que conviver só com meus irmãos pestinhas no cubículo que era chamado de quarto.

— Vamos brincar — disse Leonel.

— Não.

— Vamos, de pega-pega!

— Não, eu te trouxe aqui para passear.

— Mas eu quero brincar.

— E se correr vai apanhar.

— Quero ver — disse ele, puxando a mão da minha e começando a correr. Só podia ser brincadeira, ele iria apanhar. Corri atrás dele pelo convés e tive que me desculpar com as várias pessoas em que ele esbarrava. Ah, ele ia apanhar de verdade.

Ficamos correndo por cerca de cinco minutos, ele estava adorando aquilo e já tínhamos atravessado metade do navio em direção à proa. Ele olhou para mim sorrindo e o seu erro foi exatamente esse, não olhar para a frente nos próximos segundos.

Leonel colidiu-se com um rapaz que estava de costas e ambos caíram. Alguém vai estar muito enrascado. Aproximei-me de Leonel e dei-lhe um tapa no bumbum ao mesmo tempo que pedia desculpas para quem ele havia derrubado.

— Você está bem? — perguntei à pessoa que caiu, e logo percebi que todos ao meu redor estavam rindo. Eles eram garotos e deviam ter aproximadamente a minha idade. Que maravilha.

— Estou, sim — respondeu o garoto ao se levantar. Ele parecia ser um ou dois anos mais velho que eu. Sua pele era clara e o cabelo preto levemente enrolado.

— Me desculpe, meu irmão queria brin... — comecei novamente.

— Está tudo bem — disse ele, sorrindo. Retribui o gesto, não só por estar tudo bem, mas porque o sorriso dele era lindo, e os olhos azuis de tirar o fôlego.

— Então tudo bem... com licença — falei ao me retirar.

— Nos vemos por aí — ele ainda estava sorrindo. Assenti e me afastei, mas consegui ouvir os amigos dele fazendo piadas.

— Leonel, que ideia foi essa de sair correndo? — Dei-lhe mais um tapa no bumbum e ele ameaçou chorar. — Não chore ou será pior.

— Vai contar para o papai? — perguntou ele choroso.

— Não, sorte sua que estou de bom humor. — Era impossível ficar de mal humor depois daquele sorriso.

— Obrigado, Nita.

— Mas sem travessuras!

— Pode deixar — ele me deu um abraço e eu revirei os olhos.

Leonel conseguia ser insuportavelmente irritante quando queria, as broncas e os tapas nunca resolviam, mas quando ele queria ser amoroso tirava de letra. No geral, nos dávamos bem, eu não sabia como seria com Lorenzo quando crescesse, mas eu era muito apegada ao Leonel — ele era meu irmãozinho e eu gostava de protegê-lo e às vezes, colocá-lo na linha. Lembro quando minha mãe estava grávida dele, fiquei ansiosa para saber quem viria para este mundo, mas torcia para ser uma menina para que eu pudesse brincar. Mas então chegou o Leonel: irritante, travesso e que eu amo.

Depois da janta, – um prato de calzone – Alessandra me convidou para ir ao convés, disse que teriam algumas rodas de música. Por que não ir?

— Tudo bem se eu for, pai? — perguntei ainda na mesa de jantar.

— Não demore para voltar ao quarto. — Assenti e saí com Alessandra.

Quando saímos do grande salão, contei o que havia acontecido durante o dia, não que fosse algo muito interessante, mas estávamos em um navio em alto mar, então até uma barata correndo no corrimão seria plausível de virar história.

— Então seu irmão derrubou um garoto e você ficou sorrindo com essa cara de boba? — perguntou ela depois que contei o acontecido.

Dei um cutucão nela.

— Não fiquei com cara de boba.

— Devia ver como você está falando do garoto...

— Normal, posso lhe garantir. — Ela revirou os olhos.

— Era bonito?

— Era — respondi, não conseguindo conter o sorriso que se formou em meus lábios novamente.

— Eu disse, cara de boba de novo. — Foi minha vez de revirar os olhos.

Continuamos andando até chegar na popa, Alessandra me contou que não havia saído porque ficou olhando seu irmão mais novo que estava febril, mas no corredor ouviu sobre a cantoria à noite – e o que ela ouviu estava certo, havia uma grande roda de pessoas ali, tinham adultos, jovens, crianças... Procurei por algum rosto conhecido, mas não vi nenhum.

Algumas pessoas estavam com instrumentos e outras cantando, era uma famosa música italiana. Todos estavam se divertindo. Alessandra e eu ficamos ao canto da roda cantando também. Depois de alguns minutos, comecei a me sentir incomodada, parecia que alguém estava me observando, procurei na multidão mas não achei ninguém.

— Tem um garoto te olhando — falou Alessandra, depois que parei de procurar.

— Onde?

— Ali — Apontei para a beirada do navio. Assim que percebeu que eu o tinha visto, sorriu e caminhou em nossa direção junto com mais dois amigos. — É ele?

— É ele.

— Estava certa sobre ele ser bonito.


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